sexta-feira, 16 de março de 2012

Se a angústia da teoria leva à teoria da angústia

Da angústia da teoria e da teoria da angústia

Por jlcaon@terra.com.br



A angústia é o que pressentimos e sentimos ao intuirmos ou concebermos o Outro (personalizado como Grande Outro ou Pequeno Outro encara à moda de Grande Outro) como incompleto, faltoso, logo, desejante. Que é que Ele quer de mim? Ele ME quer ? Ele quer que eu O queira ? Como Ele quer que eu O queira ?

Nossa angústia encontra a razão de ser no desejo presente no Outro. Se o Outro deseja, então esse Outro está incompleto, carente, faminto. Perante o desejo no Outro, eu corro perigo, me angustio.

Como é que posso pacificar esse ímpeto perigoso brotando do Outro? Posso distraí-lo oferecendo-lhe, no meu lugar, o filho, como Abraão oferece ao Outro Supremo o filho Isaac. Abraão salva a pele, mas scarificaria o filho ? Há um jeito de Abraão matar a fome do Outro Supremo e salvar o filho querido? Quem sabe, tirar o filho do altar do sacrifício e por no altar, no lugar do filho, um bode, o bode expiatório. Mas, quantos bodes terá que por, se depois do último sempre é possível por mais um? Para liquidar esse assunto de uma vez por todas, no lugar do bode, quem sabe botar um pedaço de carne que uma vez cortado não volta mais? E assim nasce a circuncisão. Uma vez feita vale por todas as vezes. A circuncisão não é uma CASTRAÇÃO (emasculação, amputação do pênis ou "exculeação" dos testículos, ou ambas as coisas, não é eunuquização), é uma INCISÃO que extirpa o prepúcio, incisão que fica marcada sob a forma de cicatriz. É o batismo do crente semita, judeu ou muçulmano, ou do crente cristão, semita ou ariano, por exemplo, cristão copta, etc. Os profetas hebreus insistiam sobre o abandono do sacrifício carnal dos prepúcios do pênis dizendo que o Outro Grande, enquanto Deus, pedia e esperava o sacrifício dos prepúcios da mente e dos corações da onipotência, do orgulho, da arrogância, etc. O cristianismo, Jesus e Paulo de Tarso à frente, abolem totalmente essas práticas.

Freud é infeliz quando utiliza o termo CASTRAÇÃO (Kastration) e não o termo INCISÃO (Einschnitt). INCISÃO é corte, talho, abertura, soltura, liberação. Não é remoção de obstáculo, noção de intervenção didático-pedagógica que impede que a correnteza da um córrego flua espontaneamente. Educação é dirigir a partir de dentro, do interno, é noção próxima de eclosão, desabrochamento, épanouissement. Incisão é traçado de linha num plano cujo resultado o plano fica alterado. Incisão é corte cujo resultado destrói a esfera oca transformando-a num círculo bidimensional tipo prato, bolacha. Essas operações são operações do Simbólico que incidem na Linguagem e pela linguagem, 1) simbolificam, isto é, relativizam e flexibilizam o Imaginário dogmático e engessado; por outro, 2) simbolificam, isto é, dão eficácia ao Real impossível, se tornando matema alfanumérico ou fórmula psicanalítica, “acificado” (stalinificado), mais duros que o diamante capaz, quando aplicado, ser capaz de cortar tudo sem que algo seja capaz de cortá-lo.

Há princípios indemonstráveis por que são evidentes, a partir dos quais se louvam a Lógica de Aristóteles e a Geometria de Euclides. Há princípios indemonstráveis por que, enquanto axiomas, a todo momento é mostrado pela prática que, de fato, operam e funcionam. Nesse sentido, com princípios indemonstráveis, por que autoevidentes ou por que práticos, nada mais prático que uma boa teoria.

ele Que l'angoisse, chez Lacan, soit référée au désir de l'Autre et donc au manque qui l'affecte, nous permet de repérer le rôle qu'y joue la fonction phallique puisque si le phallus manque à venir dans le champ où l'objet "a" se présente comme tel, alors s'impose la question de ce que me veut l'Autre, la question du désir de l'Autre, sans qu'aucune nomination ne permette de l'organiser, de la lier dans la signifiance"

segunda-feira, 12 de março de 2012

Hinos ao pensamento livre

Petardo gnômico, apud Renzo Tosi, nº 1070: Liberae enim sunt cotigationes nostrae. (Nossos pensamentos são livres).

Essa expressão é extraída de um trecho de Pro Milone de Cícero (29,79) em que o orador incita a deixar livres os olhos da imaginação: contudo, às vezes é citada para indicar a absoluta liberdade do pensamento, que não pode sofrer coações externas. Frase semelhante, com essa acepção, mas com conotação nitidamente jurídica, encontra-se em Digesto (Ulpiano, 48,19,18: Cogitationis poenam nemo patitur, "ninguém pode ser punido pelos seus pensamentos"); ver também um trecho de San¬to Ambrósio (De virginitate, 17 [PL 16,293c]) e um de Tusculanae disputationes de Cícero (4,4,7), em que, recomendando-se que cada um exprima livremente seus pensamentos, diz-se: Sunt enim iudicia libera, "de fato, as opiniões são livres". Em to¬das as modernas línguas europeias existem correspondentes ao italiano I pensieri non pagano gabelle (arguta variante é constituída pelo toscano I pensieri sono esenti dal tributo, ma non dall'Inferno). =[Tem gente no Brasil querendo ser mais Belzebu que Belzebu? O Brasil não é o Inferno!]

A composição e uma primorosa tradução: http://www.rtp.pt/antena2/?t=Gustav--Mahler.rtp&article=780&visual=16&layout=27&tm=27&autor=795



E uma encantadora apresentação nas montanhas:

http://www.youtube.com/watch?v=3TdEtctcY0s&feature=fvwrel





Freud, 1927c: “... die Stimme des Intellekts ist leise, aber sie ruht nicht, ehe sie sich Gehör geschafft hat.” (A voz da razão lógica é suzave, todavia ela não descansa antes de fazer-se escutar.” (Die Zukunft einer Illusion, (O future de uma ilusao) GW 14:377).

domingo, 11 de março de 2012

Um carteado entre Franklin, Maia e eu





Franklin, agora so falta o aval do Maia, para lançarmos o carteado na comunitá de monumentos e argumentos do Antônio Prado do Sul. Mas, seria interessante ter o endereço eletrônico daquele DVD espetacular que enviaste, alertando para cosias óbvias que a gente em vendo nem enxerga nem olha.







UM CARTEADO DE E-MAILS ENTRE FRANKLIN CUNHA, HERBERT EDOSN MAIA E ESSE FASCINADO POR PASCÁCIA E ESTAFERMO!







O velhinhos estão surdos , mas não afásicos.



Como disse???



AFÁSICOS !!!!



Ahhh .eu pensei que tinhas dito "afásicos ".







Não é verdade, só estamos abalados e quase siderados com o psicanalista que diz curar a homossexualidade.



Coitado, mal sabe ele que quem dá uma vez, dará per omnia saecula saeculorum.



Na próxima cimeira , convidarei um (a) para provar o que todo o mundo sabe (menos o tal psicanalista).



Ergam-se companheiros, ao vento sobranceiro !!!.



FC











Só mais uma coisa Franklin, homossexual dá porque é homossexual, não vira homossexual porque dá. Há muito homossexual que não dá, mas é homossexual. I scapolotti e le scapolotte nos profondos rincões medievais das Antas do Prado são prova disso. Não trepavam heterossexualmente, não davam homossexualmente, nem tinha as saida barranqueira das peonada. Outrossim, nos internatos masculinos e femininos, semnários, exército, escoteiros, especialmente nas prisões, se não for tu vai tu mesmo. O inconsciente não sabe quem vem pela frente ou por trás. Nos meus tempos parisiense, em que fiquei na Maison do Brasil, havia um residente médico paulista que de vez enquando prorrompia num lamento: "Na carência em que me encontro, já me apanhei chamando a urubu de minha loirinha!" Pobre xixicanalista: "Não sabe que ser homossessual não é para quem quer, é para quem pode." E é o caso do heterossexual também. O infeliz está com inveja por não ser capz de fazer aquilo que não pode. Mas, mesmo que o faça ocasionalmente isso é apenas um quebra galho. Não é a ocasião que faz o ladrão; o ladrão se encontra a ocasião ele aproveita, se não encontra ele faz a ocasião. Que bruta gente que estudam para entender os outros e nem se entendem e suportam a si. Me parece o caso da voluntária leprosa que pediu para ser assistente de médico no leprosário, para tratar as outras leprosas... Co se ze mui, se ze mui. Não é muito progresso passar de anta quadrúpede para ante bípde implume. Libiamo e ridiamo. Amichevolemente,



José Luiz Caon











----- Original Message -----



From: Herberto Edson Maia



To: 'Franklin Cunha'



Sent: Sunday, March 11, 2012 6:36 AM



Subject: RES: Já que os velhinhos não falaam mais, falo eu !!!







Franki So falta o Caon explicar para aprimorar o contexto da discussão algo também muito interessante. Eu me lembro de uma paciente que teve seis filhos e como ela era jovem e já numa época que o maximo que se admitia seriam dois. A pergunta que ficava era porque? A resposta “ É porque quando estou grávida me sinto maravilhosamente bem e em dois dos meus partos normais eu tive uma sensação tão maravilhosa que eu identifiquei como uma espécie de orgasmo” Elucubrações minhas – A passagem do feto pelo canal vaginal se equivaleria a uma relação sexual orgástica onanistica? Ou mais como a experiência de um númeno na linguagem Bioniana. Experiencias como essa geram uma espécie de Fé que não tem nada de religioso, mas sim de verdade altamente significante nos termos de Lacan no nível pessoal. Esta é uma verdade única numinosa e pessoal. Segunda elucubração - Freud postulou a hipótese de duas pulsões a nível de principio incontestável e portanto transcendentes. Pulsão de Vida ou Eros e Thanatos ou pulsão de morte. Eros para sobreviver já que ele é o Anjo da espécie, pois ao mante-la viva seria eterno no tempo maior, prezaria ao maximo o individuo que procria, pois só através da procriação haveria eternidade para Eros. Outra elucubração para ser aprimorada pelos velhinhos falantes é se haveria possibilidade de um contato numinoso altamente significante para a experiência pessoal entre Eros e essa mulher. Outra elucubração - o individuo separado não procriador não teria valor para a eternidade da espécie portanto seria livre para durante sua curta vida ser o que bem quisesse sem nenhuma culpa erótica?( pecado original) Neste novo contexto não subiria vertiginosamente a importância da mulher?( para Eros ou para nos homens) Lembro que numa reunião clinica em que eu era o coordenador na FFCSPA, um psicanalista foi apresentar três casos de cura da homossexualidade por ele e como a propaganda da reunião saiu na mídia la estavam presentes membros de sociedades homoafetivas. A briga foi tão pesada e que acho que só se amainou quando eu levantei a hipótese acima, mas que acho que não foi entendida pelo psicanalista, mas ao mesmo tempo ficou palatável para os representantes das entidades. Depois falando comigo esses representantes acharam interessante a possibilidade de conciliação do individuo com a espécie com algo original e interessante para ser melhor discutido. De novo passo para os velhinhos falantes. Um abraço, Maia.







Carta e-mail 01: From Franklin:







O velhinhos estão surdos , mas não afásicos.



Como disse???



AFÁSICOS !!!!



Ahhh ... eu pensei que tinhas dito "afásicos ".



Não é verdade, só estamos abalados e quase siderados com o psicanalista que diz curar a homossexualidade.



Coitado.... mal sabe ele que quem dá uma vez, dará per omnia saeculom saeculorum.



Na próxima cimeira , convidarei um (a) para provar o que todo o mundo sabe( menos o tal psicanalista).



Ergam-se companheiros,



ao vento sobranceiro !!!.



FC







----- Original Message -----



From: Herberto Edson Maia



To: 'Franklin Cunha'



Sent: Sunday, March 11, 2012 6:36 AM



Subject: RES: Já que os velhinhos não falaam mais, falo eu !!!







Carta e-mail 03, From Maia:



Franki So falta o Caon explicar para aprimorar o contexto da discussão algo também muito interessante. Eu me lembro de uma paciente que teve seis filhos e como ela era jovem e já numa época que o maximo que se admitia seriam dois. A pergunta que ficava era porque? A resposta “ É porque quando estou grávida me sinto maravilhosamente bem e em dois dos meus partos normais eu tive uma sensação tão maravilhosa que eu identifiquei como uma espécie de orgasmo” Elucubrações minhas – A passagem do feto pelo canal vaginal se equivaleria a uma relação sexual orgástica onanistica? Ou mais como a experiência de um númeno na linguagem Bioniana. Experiencias como essa geram uma espécie de Fé que não tem nada de religioso, mas sim de verdade altamente significante nos termos de Lacan no nível pessoal. Esta é uma verdade única numinosa e pessoal. Segunda elucubração - Freud postulou a hipótese de duas pulsões a nível de principio incontestável e portanto transcendentes. Pulsão de Vida ou Eros e Thanatos ou pulsão de morte. Eros para sobreviver já que ele é o Anjo da espécie, pois ao mante-la viva seria eterno no tempo maior, prezaria ao maximo o individuo que procria, pois só através da procriação haveria eternidade para Eros. Outra elucubração para ser aprimorada pelos velhinhos falantes é se haveria possibilidade de um contato numinoso altamente significante para a experiência pessoal entre Eros e essa mulher. Outra elucubração - o individuo separado não procriador não teria valor para a eternidade da espécie portanto seria livre para durante sua curta vida ser o que bem quisesse sem nenhuma culpa erótica?( pecado original) Neste novo contexto não subiria vertiginosamente a importância da mulher?( para Eros ou para nos homens) Lembro que numa reunião clinica em que eu era o coordenador na FFCSPA, um psicanalista foi apresentar três casos de cura da homossexualidade por ele e como a propaganda da reunião saiu na mídia la estavam presentes membros de sociedades homoafetivas. A briga foi tão pesada e que acho que só se amainou quando eu levantei a hipótese acima, mas que acho que não foi entendida pelo psicanalista, mas ao mesmo tempo ficou palatável para os representantes das entidades. Depois falando comigo esses representantes acharam interessante a possibilidade de conciliação do individuo com a espécie com algo original e interessante para ser melhor discutido. De novo passo para os velhinhos falantes. Um abraço, Maia.







De: Franklin Cunha [mailto:franklincunha@terra.com.br]

Enviada em: sexta-feira, 9 de março de 2012 21:19

Para: silver36@terra.com.br; mareusoares; Airton Fieschman; Bruno Mendonça Costa; José Luiz Caon; Herberto Edson Maia; Norma U. Escosteguy

Assunto: Já que os velhinhos não falaam mais, falo eu !!!







CARTA E-MAIL from jlcaon para Franklin



Só mais uma coisa Franklin, homossexual dá porque é homossexual, não vira homossexual porque dá. Há muito homossexual que não dá, mas é homossexual. I scapolotti e le scapolotte nos profondos rincões medievais das Antas do Prado são prova disso. Não trepavam heterossexualmente, não davam homossexualmente, nem tinha as saida barranqueira das peonada. Outrossim, nos internatos masculinos e femininos, semnários, exército, escoteiros, especialmente nas prisões, se não for tu vai tu mesmo. O inconsciente não sabe quem vem pela frente ou por trás. Nos meus tempos parisiense, em que fiquei na Maison do Brasil, havia um residente médico paulista que de vez enquando prorrompia num lamento: "Na carência em que me encontro, já me apanhei chamando a urubu de minha loirinha!" Pobre xixicanalista: "Não sabe que ser homossessual não é para quem quer, é para quem pode." E é o caso do heterossexual também. O infeliz está com inveja por não ser capz de fazer aquilo que não pode. Mas, mesmo que o faça ocasionalmente isso é apenas um quebra galho. Não é a ocasião que faz o ladrão; o ladrão se encontra a ocasião ele aproveita, se não encontra ele faz a ocasião. Que bruta gente que estudam para entender os outros e nem se entendem e suportam a si. Me parece o caso da voluntária leprosa que pediu para ser assistente de médico no leprosário, para tratar as outras leprosas... Co se ze mui, se ze mui. Não é muito progresso passar de anta quadrúpede para ante bípde implume. Libiamo e ridiamo. Amichevolemente,



José Luiz Caon







Carta e-mail jlcaon para Maia



Pois, Maia, tuas observações em deriva avançam como correnteza.



Apenas para ver como essa figuração de homossexalidade é como fenótipos que aparecem diferentemente a partir de um mesmo genótipo, como se sabe pela Genética. Ou uma única estrutura aparece em diferentes figuras,



No Manual dos Psiquiatras Amaricanos, hava o diagnostico psicopatológico de homossexualiade. Foi retirado. E por que? Por que muitos dos compiladores do Manual agora eram homossexuais.



Já viu raposa em tribunal julgar raposas porque essas comem galinha? Ou Juís traficante condenar traficantes? Ou deputados despudorados condenarem o igual?



Já vi dentista com dentes estragados cuidando dos dentes estragados do cliente, já vi professor de fisiologia dar uma excelente aula de fisiologia se ganindo de indigestão...



Mas, homossexualidade ou heterossexualidde não é profissão que se adquire como odontologia, psiquiatria, psicanálise, é muito mais. Não tem batismo que torne alguém homossexual ou heterossexual como o batismo que pode tornar (?) alguém cristãozinho ou qualquer outra coisa.



Assim como a mulher aquela que citas se permitia ter orgasmos santateresianos na hora do parto, tem quem tenha as mesmas e melhores experiências até se "frottando" nas grandes multidões de jovens que pulam e pulam e pulam sem saber para quem estão se frottando e frottando. É um prolongamento do carnaval de rua que não se submete a essas escolas militares carnavalescas da sexualidade. O gozo é depois ou pensando no depois!



Nossa sexualidade humana, como se sabe, é bem diferente da dos bichinhos que não passam do nheconheco: essa nossa sexualidade não para de se manifestar e se não for tu, como se diz, vai tu mesmo. Os animais não namoram e se excitam a não ser presencialmente, via cheiros químicos e sons ou ruídos. Mas, trepar e se orgasmar com Marilin Monroe! Que bichinho seria capaz desse portento? O que Freud ergueu apenas dizendo aquilo que não podíamos dizer, apesar de estar estar na nossa cara! Pois, tem freudiano que ainda não chegou ao tempo de Freud. É, nem tudo que boia é navio!Amichevolemente, jlc



José Luiz Caon







AO ENSEJO DESSE ANTOLÓGICO TEXTO MANDADO POR FRANKLIN CUNHA, NO FIM ESTÃO MINHAS CONSIDERAÇÕES;











Subject: Já que os velhinhos não falaam mais, falo eu !!!















“A MULHER NÃO EXISTE "



(Apud Jacques Lacan)



Franklin Cunha







“ Não nascemos mulher, nos construímos “



Simone de Beauvoir ( in O segundo Sexo)











“ A homossexualidade – masculina ou feminina – é uma espécie de protesto contra o falocentrismo e a prática heterossexual compulsórios”.







Judith Butler ( in Problemas de Gênero)







A surpresa da afirmação de Lacan só surpreendeu a quem não se lembra do que disse Freud. " Não esqueçam que somente descrevemos a mulher na medida em que seu ser está determinado por sua função sexual. Essa influência chega, certamente, muito longe, mas não percamos de vista que além desse aspeto, cada mulher pode ser também um ser humano. Se quiserem saber mais sobre a feminilidade, consultem suas próprias experiências de vida ou dirijam-se aos poetas ou melhor, esperem que a ciência possa dar uma explicação mais profunda e coerente".( De um texto sobre a Feminilidade, 1931).



Se cada mulher “ pode ser também um ser humano e que sua função sexual chega muito longe“, é uma afirmação mais surpreendente do que a de Lacan, embora o velho esperto e experto ( como o diabo) Sigmund, delegou a solução do dilema da “ humanidade da mulher “ para os poetas e para os cientistas, embora , a nosso ver, os primeiros tenham , para o entendimento das mulheres, maior e melhor contribuição do que os últimos. Em todo o caso, ele deixa claro que há uma espécie de desdobramento do que sejam as mulheres: seres humanos algo diferentes e em todo o caso mais complexas e, para o nosso entendimento, “ mais complicadas “ não por elas em si, mas por força dos falocratas de agora e de sempre. Não esqueçamos que no tempo de Freud - e mesmo em plena a atual pós-modernidade, seja lá o que o termo queira significar - a única maneira de recuperar um lugar e uma função social para a mulher era a maternidade, especialmente para aquelas que pariam filho do sexo masculino.



Num seminário de Lacan de 1980, lemos:



“Tudo o que faz parte da categoria do humano se relaciona com o falo e esta relação é, em primeiro lugar uma relação com o significante, com a ordem simbólica.(F. Saussure). As mulheres não fogem disso e por conseguinte não têm que ser imaginadas como dotadas de uma natureza anti-fálica ou a-fálica da qual não há traços no inconsciente delas“. Como todo o ser humano, as mulheres estão sob a instância do significante, mas compartilhar esta idéia com os homens não as aproximam deles, pelo contrário, as afastam. Donde se deduz que a mediação da linguagem, quando feita somente através de significantes (pois os signos lingüísticos foram estabelecidos discricionariamente por falocratas empedernidos), instaura o mal-entendido na comunicação entre os sexos a tal ponto que Lacan disse certa vez com grande e surpreendente contundência: “ A relação sexual não existe “. É o filósofo esloveno Slavoj Zizek(1949 -) que explica este aparente paradoxo ao dizer que, por não haver nenhuma fórmula simbólica universal de relação complementar entre os sexos,( homens e mulheres são simplesmente seres humanos, sem adjetivos e sem interpretações iluministas ou pós-modernas), qualquer relação entre eles tem que se suplementar com características individuais, espécie de muletas fantasmáticas que são as únicas capazes de sustentar relações sexuais prazerosas. ( “ Sem mistério, sem fantasia, não há poesia nem imaginação erótica”). Se o nó desta fantasia se desata,(e isto acontece quase sempre na convivência diária e duradoura), perdemos nossa capacidade universal para a atividade sexual eroticamente satisfatória.



Em congresso sobre a sexualidade feminina, Lacan retoma o tema e entre 1920 e 1930 chega à conclusão de que, afinal de contas, o dito debate, pleno de idéias contraditórias e equivocadas, não esclareceu a questão, mas, pelo contrário, a obscureceu.



Não obstante, Freud teve nele uma participação decisiva, de modo que depois de 1925 já não se limitava a dizer que as meninas eram uma espécie de varões frustrados ( outra maneira de dizer que a mulher não existe) e que além disso, tinham um psiquismo diferente.



Até que chegam Michel Foucault (1926-1984) e Judith Butler.( 1956 - )



Estes dois autores, o primeiro a partir de sua História da Sexualidade e a última com obras posteriores( Problemas de Gênero e outras), têm tentado suplementar suas críticas à psicanálise com uma descrição “positiva” da formação da identidade sexual, ( melhor diríamos: das identidades) baseadas tais críticas no mecanismo freudiano. Butler parte da definição freud-lacaniana de repressão e forclusão.



A repressão é um ato por meio do qual o sujeito, conscientemente, reprime alguns conteúdos psíquicos para manter seu equilíbrio mental. A forclusão é um gesto negativo de exclusão ( desmemoria?), um gesto do qual depende a consistência de sua identidade. Diferente da repressão, a forclusão não pode ser assumida pelo sujeito posto que esta percepção o desintegraria psiquicamente.



Butler vincula esta forclusão primordial com a homossexualidade: é a forclusão do apego apaixonado ao idêntico ( ao progenitor do mesmo sexo), um apego que o sujeito terá de sacrificar para adquirir uma identidade no espaço da ordem sócio-simbólica heterossexual impositiva. A lógica de Butler inova no sentido de revelar que a forclusão ( ou lei ) primordial, não é a proibição do incesto, pois esta lei pressupõe a vigência na criança da norma falocrática heterossexual, na qual o desejo incestuoso se dirige ao progenitor do sexo oposto, porém esta heterossexualidade normativa foi divulgada na cultura psicanalítica em virtude da forclusão prévia do apego homossexual considerado anormal, de-generado ( isto é, incompatível com o gênero humano).



É a mesma Butler que conclui: “O conflito edípico pressupõe que o desejo heterossexual é natural na criança e que a diferença entre o hétero e o homossexual entra em vigência desde os primórdios da infância. Neste sentido, a proibição do incesto pressupõe a proibição da homossexualidade, pois impõe a heterossexualização do desejo”. (Butler: The Psychic Life of Power )



.



Nesta perspectiva, o estabelecimento na crença tanto da heterossexualidade normativa como da ”naturalidade” da predominância sexual masculina, enfim da tradicional e velha falocracia, são construções ideológicas em toda a parte presumidas, mas nem sempre comprovadas, porém divulgadas na literatura, no folclore, na história e mesmo na psiquiatria, enfim, na cultura do ocidente cristão em geral..



Nada teríamos a estranhar de tal ideologia falocrática, quando sabemos, por exemplo, que foi somente em 1973 que a Associação Psiquiátrica Americana, retirou o homossexualismo da lista dos Distúrbios de Conduta. E não se pense que esta exclusão (como foi a inclusão dela), tenha sido fruto de uma pesquisa científica provando que os homossexuais são mais ou são menos emocionalmente perturbados ou perigosos para a ordem social e psíquica do que os heterossexuais. Esta medida da APA foi apenas uma resposta às pressões de ativistas em prol dos direitos dos homossexuais e de psiquiatras gays, os quais refletem uma mudança cultural nas crenças tradicionais sobre a sexualidade, crenças estas ainda vigentes em fundamentalistas de extrema direita e, mais grave ainda, na ideologia de alguns psiquiatras. E - infelizmente, dizemos nós – da igreja católica. Pois não é verdade que afinal, não importa de que sexo ou gênero sejamos, somos todos - mulheres, homens, gays e lésbicas – pobres e desamorosos filhos de Deus ? Constante e insaciavelmente ávidos de amor e paixão?



Por fim, lembramos um homossexual de gênio quando, se referindo ao cuidado com que devemos interpretar certas teorias vigentes , disse:







“O voi ch´avete gl´ intelletti sani



Mirate la dottrina che s´asconde



Sotto´l velame delli versi strani !”







Dante Alighieri



Frnaklin, cum grano salis!







o termo “inconsciente” aparece somente uma vez.







“A mulher não existe” e “A relação sexual não existem” são frases midiáticas que precisam ser debulhadas e serem lidas no seu contexto lógico-matemático-topológico.



A primeira é um matema lógico e a formulação retórica existe para primeiro a mídia italiana que queria esnobar a Lacan: "Lacan dice que la donna non c'è." Ou coisa parecida. Com se escanalizarm à bessa, Lacan continuou com firulação.







A segunda é uma tradução vil, pois o que é em francês é "rapport" que o próprio Lacan às vezes substitui malevolamente por "rélation"? Rapport é termo matemático da proporcionalidade, isto é, a razão entre dois e quatro equivale à razão entre seis e doze. Então, não há equivalência de gozo no coito do homem com a mulher, não há razão de proporcionaldiade entre ambos. Só isso. Quem não sabe isso? Cada qual com seu gozo: 1) ou um tem e a outra tem, 2) ou a outra tem e o outro não tem 3) ou o outro tem a a outra não tem, 4) ou ambos não têm. E se esgotam as possibilidades.



Quando Tirésias foi consultado pela Deusa do mulher de Júpiter sobre a proporção de gozo no ato sexual dela e de Júpiter, (Tirésias tinha sido homem que virou mulher e que voltou a ser homem!), pois Tirésias, sabedor das coisas por experiência, disse: “O gozo de Júpiter equivale a 1/10 do gozo da Deusa. Revoltada ela o cegou incontinenti. Júpiter, com pena da cegueira do Tirésias, deu-lhe o dom da profecia e da interpretação da profecia.



Psicanálise depois de Lacan somente com matemas lógicos e topológicos!



O resto é firualação retórica que está tornando a psicanálise de valor científico em valor cultural meio ultrapassado.



E cosi la nave và. Abraço, jlc



José Luiz Caon











E mais um pouco para finalizar esse carteado:



From Franklin Cunha:







Quem sabe, sabe ...



O texto, em geral, não é absolutamente entendido por meus colegas, mesmo psiquiatras. Trata-se , na verdade, de elocubrações que nos remetem a uma série de conceitos que, como o Nó Borromeu, podem ser desfeitos apenas desmascarando um deles.Mas como falar com quem nunca leu Freud, lacan, Judith Butler, Simonde Beauvoir e outros bichos?



Ma, furbo come tu, è dificile trovarse.



Abraço



Franklin



E for fim jlcaon:







Santa Pace, Franklin, furbo é coisa de perspiração cotidiana mais do que inspiração ou piração, como dizia o nosso americano: Ginius is 99 perspiration and 1 percent inspiration. Agora, imgina uma pessoa que tem as duas coisas: aí temos um Neimar, um Einstein, etc. Mas, imagina que tenhamos uma pessoa sem nenhum dos dois: ai temos uma ante de duas pernas. É como agente diz dos doutorandos: tem uns que tem cabeça, mas não têm bunda para sentar; outros tem bunda, mas não tem cabeça; há uns que tem as duas coisas em bora não o tempo todo; agora imagina o que nem tem cabeça nem bunda. Uma anta de duas nípede e implume!







Espetacular o DVD com anuncios impactantes. A declaração do mal é sempre mais dolorosa que o próprio mal. Mas, a verdade não vem de graça. Abr jlc



José Luiz Caon

sábado, 10 de março de 2012

Aula analítica e Seminário psicanalíco

A escuta outra de Brasilino e Karnas, e a escuta mais parecida com uma prática minha de Leandro e especialmente de Xavier me ensejam a que eu tente distanciar o que é uma escuta e leitura analíticas e uma escuta e leitura psicanalíticas. Consultando meus alfarrábios, encontrei a Filigrana 07/14 que passarei a vocês, um pouco mais legível e sarada agora. Em tempo, gostaria de dizer a Karnas que a economia divina (teológica) e a economia política (Adams, Marx, etc.) se parecem muito, pois o obejeto é o prêmio-mercadoria. Mas a economia libidinal (Freud) ou desejante (Lacan) difere radicalmente das duas, pois que o objeto da economia desejante é "o objeto a pequeno", ilusório e sempre inalcançável. O analista interpreta para pontuar, o psicanalista pontua para interpretar (às vezes nem é preciso se a pontuação foi feliz). Os sujeitos da economia divina e da economia política, à leur insu (sem que o saibam) são movidos a economia desejante. Por isso essas inconsolações postergadas em consolações futuras na economia divina e na economia política. "Por que as mulhers se pintam, pergunta o menino". A mãe responde: "Para ficarem bonitas". Eele: "E por que não ficam de uma vez?" Por que se busca a salvação e o dinheiro se o que temos unicamente é o presente quanto tem presente e enquanto dom. A eternidade não é nem o futuro que não está aí, embora já negociado pela economia divina e política, nem o passado que já se foi. O presente é de tal maneira que em sendo agarrado se esvai. É assim o inconsciente: sempre presente: inagarrável e sempre surpreendente.



FILIGRANA 07: AULA E LEITURA LÓGICO-LINGUISTICAS DO SIGNO XOR SEMINÁRIO E LEITURA LÓGICO-LINGÜÍSTICOS DO SIGNIFICANTE, ISTO É, AULA E LEITURA ANALÍTICAS XOR SEMINÁRIO E LEITURA PSICANALÍTICOS.



“Ustedes sabrán que el inicio y el desarrollo de la lógica tiene como objetivo suprimir el equívoco del lenguaje ordinario. El resultado es una escritura que no puede ser hablada. Hablar es producir equívocos, cadenas significantes que implican necesariamente el malentendido. La escritura, por el contrario, es hacer letra de lo que se dice, es una operación que evita el malentendido. Si ustedes quieren, podríamos decir que el significado consiste siempre en reducir el equívoco a una sola lectura.

Tendríamos que diferenciar entre decir y leer. Decir es lo que se juega a nivel del significante, mientras que leer es lo que permite que haya significado, o sea, transponer la barra. (Rinty d’Angelo, Eduardo Carvajal, Alberto Marchilli, in Una introducción a Lacan. BA: Lugar Editorial, 7ª ed, 1994, p. 31).



Observação: os termos “análise”, “analítico” e “analisante” serão empregados a partir do contexto da Filosofia e da Lingüística. No contexto deste texto, isto é, na perspectiva freudo-lacaniana, usarei “PSICanálise”, “PSICanalítico” e “PSICanalisante”.

Igualmente, “Leitura Analítica” e “Leitura PSICanalítica”; “Escuta Analítica” e “Escuta PSICanalítica”; “Interpretação Analítica” e “Interpretação PSICanalitica”, etc. Remeto o leitor aos dicionários de Lalande e de Abbagnano, especialmente aos vocábulos “análise” e “PSICanálise”.













AULA E LEITURA ANALÍTICAS XOR SEMINÁRIO E LEITURA PSICANALÍTICOS.



Com as expressões “Aula Analítica” e “Leitura Analítica”, identifico as conexões lógicas e lingüísticas presentes implícita ou explicitamente num texto. Na aula analítica e na leitura analítica fico na posição do Amo ou Patrão, caracterizados pelo Lógico Aristotélico Analítico (LAA) ou pelo Lingüista Saussureano Analítico (LSA), para os quais o significante, em sua verdadeira dimensão, pode ficar desconhecido e sempre em segundo lugar, crendo eles poder reduzir, na Aula Analítica e na Leitura Analítica, toda e qualquer leitura a uma só e única leitura. Assim o faz também esse tipo de instituição ou associação PSICanalítica dissimulada sob a forma de AMA-patroa, conduzindo-se como se a linguagem, enquanto única e insuperável instituinte, pudesse ser subjugada ou domesticada. Diferentemente procede a comunidade PSICanalítica de língua e de escritura, a qual, instituída perenemente e unicamente pelo significante, persiste apesar das instituições ou associações PSICanalíticas, e sem a qual essas não passariam de cemitérios de letras mortas.

Na Aula Analítica e na Leitura Analítica, o signo feito unidade indestrutível, unidade do significado inseparável do significante, congela o significado e pretende domesticar o significante. O signo faz de uma associação PSICanalítica uma usina de associações antecipadas e premeditadas. Por exemplo, o estatuto de cada uma delas seguido canonicamente como os membros se vigiam entre si, devotados ao Big Brother, em nome do qual ou apesar do qual até a palavra “autnomia” é censurada como anti-lacaniana.

O significante faz de uma associação PSICanalítica uma comunidade PSICanalítica de língua e de escritura, isto é, uma usina de desassociações inesperadas, inantecipáveis, impremeditadas, e, por isso, mesmo insuportáveis pelas instituições ou associações PSICanalíticas amas-patroas.

Uma leitura conduzida na perspectiva do significante indomesticado e indomesticável dá lugar a que advenha uma outra lógica, uma outra lingüística, a saber, a Lingüística PSICanalítica e a Lógica PSICanalítica.



No Seminário PSICanalítico, que ab-roga a Aula Analítica, escutamos o significante a partir da letra. Os PSICanalisantes, na situação PSICanalítica do Tratamento (SPT), ou na situação PSICanalítica do Seminário ou na Situação PSIcanalítica de Aprendizagem (SPA) (os participantes são invariavelmente aprendentes do e pelo inconsciente, sejam seminariantes-ouvintes ou ouvitnes seminariantes, sempre na posição de psicanalisante), entregam-se à produção de discursos destinados para sempre a inúmeras leituras PSICanalíticas.



No Seminário PSICanalítico e na Leitura PSICanalítica, diferentemente do que ocorre na Aula Analítica ou na Leitura Analítica perspectivadas pelo signo, o significante domina e não é dominado. De fato, no Seminário PSICanalítico e na Leitura PSICanalítica, o significante além de dominar fica para sempre indominável. A Interpretação PSICanalítica será, portanto, uma escansão sempre provisória e não um escanção, como escrevia um arrebatado portunhol, viciado e viciado em portunhol-chique, esse tipo de joycismo latrino-americananalhado, degradado e rebarbativo, pré-perverso e antesco, bem do gosto de antas bípedes implumes.

Os PSICanalisantes serviçais das amas-patroas, diferentemente dos PSICanalisantes da comunidade PSICanalítica de língua e de escritura, ficam incapazes de ler um chiste. Na Leitura PSICanalítica e nos Seminários PSICanalíticos, os PSICanalisantes lêem, de inúmeras formas o chiste, sendo que pelo menos uma – que é da natureza da Interpretação PSICanalítica – não pode não os fazer rir. Então, se há uma Lingüística PSICanalítica, o chiste é seu melhor exemplo. (Cf. Masotta, apud Rinty d’Angelo, Eduardo Carvajal, Alberto Marchilli, in Una introducción a Lacan. BA: Lugar Editorial, 7ª ed, 1994. p 24.).



O significante gerador do significa está para a leitura da Escuta PSICanalítica assim como o significado hipotecador do significante está para a leitura da Escuta Analítica. Na situação PSICanalítica do Tratamento (SPT) ou do Seminário ou Aprendizagem (SPA), “... el significado es la lectura de lo que se escucha de significante.” (Rinty d’Angelo, Eduardo Carvajal, Alberto Marchilli, in Una introducción a Lacan. BA: Lugar Editorial, 7ª ed, 1994).



Pontuar PSICanaliticamente diferentemente de Interpretar PSICanaliticamente é deletrear o significante, fazê-lo aparecer enquanto letra. Com a Pontuação PSICanalítica, o significante torna-se letra. Outrossim, a Interpretação PSICanalítica dá lugar a que o significante se torne letra, assim como o retorno do recalcado ao ser interpretado PSICanaliticamente torna-se letra. PSICanalisar é transformar o mal-entendido em letra, fazendo-o ficar patente ou desesquecido (alethé).



Por fim, lá onde há Significação Analítica (Aristóteles, Saussure), lá deve advir Significância PSICanalítica (Freud, Lacan). “Es imprescindible aclarar que la letra en el psicoanálisis no supone la lectura de un sentido oculto, sino la producción de sentido a partir de una cadena inaprensible como tal. Hacer letra es poner de manifiesto el malentendido y de ningún modo domesticarlo.” (Rinty d’Angelo, Eduardo Carvajal, Alberto Marchilli, in Una introducción a Lacan. BA: Lugar Editorial, 7ª ed, 1994, p. 32).





LÍNGUA <=> ESCRITA - A pontuação interpretante PSICanalítica está para a FALA assim como a interpretação pontuante está para a ESCRITURA.



Com o termo “língua”, conoto ALGO que posso produzir com meu corpo na presença de uma testemunha. Esse ALGO é, em primeiro lugar, minha fala. Tomo o termo “fala” enquanto gênero cujas espécies são as seguintes:

#1. a fala oral articulada - essa expressão carece de explicitações;

#2. a fala gestualizada com os membros ou extremidades do corpo ou certas partes do corpo (dedos, mãos, braços, pés, pernas, cabeça, etc.; rosto, orelhas, olhos, boca, etc.);

#3. a fala corporificada mediante movimentos do corpo, mediante posturas do corpo, mediante modificações do corpo (pele rubra, etc.);

#4. a fala escriturada ou a escritura falada como e-mail e o chat eletrônico falado com a ponta dos dedos ou escriturado com a língua digital das mãos.



Com o termo “escrita”, conoto algo que produzo diretamente com meu corpo, escavando sobre uma superfície mole ou dura, isto é, fazendo glifos, sulcos com os dedos ou com os pés; ou que produzo indiretamente sobre uma superfície, escavando-a, fazendo-lhes glifos ou sulcos com um instrumento, ou acrescentando-lhe algo com um instrumento, como tinta líquida ou seca (carvão, por exemplo), ou tinta eletrônica com o instrumento chamado computador. A partir do exergo posto no início desse texto, pode-se ver que a escritura pode ser escritura stricto senso, isto é, escritura impossível de ser falada, e escritura falada ou fala escriturada como no #4,



Estabelecidos esses dois reinos ou duas formas de realização da linguagem, “língua” e “escrita”, eis como vejo as especificidades de um e de outro.



O que a voz, gesto e movimentos ou posturas ou transformações do corpo são para a fala oral articulada, gesticulada e corporificada, a tinta acrescida e os sulcos escavados numa superfície são para a escritura.



Concebida dessa maneira, a escritura apresenta certas formações que bem podem ser consideradas pré-existentes à fala oralizada. Por exemplo, traços, rabiscos, desenhos sobre as rochas nas cavernas, etc. Evidentemente, nem se duvida que as falas gesticuladas e corporificadas precedem a fala oral articulada. E há uma fala oral inarticulada que não somente precede a fala oral articulada, como também perdura e persiste impregnada nessa última. Exemplos são os pigarros, as gargalhadas, os gemidos, os roncos, certas exclamações, os cliques, etc., para os quais praticamente inexistem possibilidades de representá-los com a escritura.

Estamos, de fato familiarizados com expressões do tipo: “Isso é inefável!”, “Não tenho palavras para dize-lo!” Todavia, não estamos acostumados a ouvir: “Isso é inescriturável!” Assim como há “coisas” que são faláveis, mas que ficam inescrituraveis, também há coisas que são escrituráveis, mas que ficam infaláveis.



Sempre me deixou curioso o modo como se falam e como se escrevem, nas diferentes culturas, por exemplo, o canto do galo ou o miado do gato. Evidentemente, um galo na China ou no Brasil, cantam igualmente. Eu aceito, embora não tenha feito a experiência, que se um galo do Brasil for levado para a China, ou vice-versa, não será possível diferençá-los a partir do respectivo canto. Um gato na época dos romanos e um gato da atualmente miam da mesma maneira. Mas, os chineses e os brasileiros dizem diferentemente pela fala e pela escritura tanto o canto do galo como o miado do gato.



O fato de um gato dos tempos dos Césares e um gato do presente miem igualmente e o fato de que um galo chinês e um galo brasileiro cantem igualmente provam que o imajário é universalmente fixo e fechado, no tempo e no espaço. Todavia, o fato de que os romanos de antes de Cristo e os cristãos da atualidade digam diferentemente o miado do gato e o fato de que os chineses de hoje e os brasileiros de hoje digam diferentemente o cato do galo provam que o simbólico é universalmente fixo mas aberto, no tempo e no espaço. O imajário constitui uma vez para sempre – uma vez é todas as vezes! – o miado do gato ou o canto do galo. O simbólico constitui todas as vezes transitoriamente o miado do gato ou o canto do galo.



O dizer pelas diferentes falas ou o dizer pelas diferentes escrituras por acaso é diferente! Será diferente somente quando um e outro desses dizeres forem perspectivados segundo o imajário ou o simbólico. Perspectivados dentro do imajário, o dizer pelas diferentes falas e o dizer pelas diferentes escrituras são homologamente os mesmos, isto é, idênticos, produzindo sempre o mesmo sentido. Perspectivados dentro do simbólico, o dizer pelas diferentes falas e o dizer pelas diferentes escrituras são homologamente os mesmos, isto é, idênticos, produzindo, porém, sempre diferentes significados.



Houve um tempo em que fazer filho era perpetuar-se ou eternizar-se, especialmente se o filho carregava o mesmo sobrenome do pai do pai. Houve um tempo em que construir o edifício de uma igreja ou escrever um livro significava perpetuar-se. Prêmio de consolação para o clero que não pode se perpetuar no rebento do filho?



Visto que a perpetuação é o delírio privilegiado do eu assim como o eu é o sintoma privilegiado do sujeito, resta-nos a tentação da celebridade e dos pódios. Memento homo quia puvis es et in pulverem revertebis. (Lembra-te, homem, que és pó e que ao pó retornarás.) Assim, digamos o que dissermos, pelas diferentes falas ou diferentes escrituras, tanto faz plantar árvores, fazer filhos, escrever livros, todos haveremos de passar. Mas dizer pelas diferentes falas e dizer pelas diferentes escrituras é prova que não estamos alienados nem mortos. Assim como pode haver vida e excelência antes da morte, assim também pode haver morte e alienação antes da morte.



Retornando de Paris, em 1993, observo com espanto que o pátio externo de meu Instituto de Psicologia ficara protegido por diversas cercas. Vivi aquele novo apagamento da liberdade como um início de uma série de outros apagamentos que, um após o outro, se sucedem vertiginosamente, com o aplauso calado de quase toda a juventude e da maior parte dos adultos desse país. Dos idosos, nem convém falar! Existe morte e alienação antes da morte! Uns versos toscos que então escrevi e que foram publicados no fim de um trabalho, trago-os agora novamente em nova mente:



Para o que vejo,

meus olhos se recusam olhar:

atrás de grades,

multidões de abandonados

protegendo-se da fúria de outros abandonados,

todos tendo em comum o mesmo princípio de abandonamento.

Quem porá limites

a esse gozo de abandonamentos sem fim?

Mas, é nessas constituintes de inferno,

é nesse princípio de abandonamento geral,

e é nessa anti-função paterna

que eu me reconheço brasileiro,

um estuprado nos seus direitos essenciais,

desde Cabral até Collor e todos os seus colares.

Mas, se você puder me dirigir o olhar e puder me dar a mão,

então haverá um abandonado a menos

e um cidadão a mais.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Outras maneiras possíveis de fazer memória: essa é uma

O dinheiro na vida e a vida no dinheiro



Por jlcaon@terra.com.br







Nas aventuras de guri, por diversas vezes eu estive envolvido com estratagemas e inventividades de adquirir dinheiro. Uma delas consistia em ir à loja a pedido de minhas tias e avó e receber uns níqueis que elas tiravam do troco que lhe lhes trazia.

Havia também o estratagema de ficar com moedas distraídas, que logo aprendi ser algo extremamente difamante. O ganho obtido em tais situações tornava-se grave perda e prejuízo em termos de honra e consideração.

Todavia, tomar dinheiro de pessoas distraídas, isto é, tolas, “pori grami”, isso era louvado e considerado virtude. Essa furberia muito valorizada, embora não confessada, a não ser em certas pequenos grupos, especialmente entre colonos e citadinos ítalo-brasileiros, que ainda se consideram imigrantes e não expatriados, avatar recente de que é nosso petróleo, continua sendo enigma para mim.

Passar para trás o outro, sendo esse outro esperto ou não, são triunfo e gozo bem mais superiores que o próprio ganho em dinheiro obtido por esse colono. É um tipo de machismo em que o desfrute de comer uma mulher é menos gozoso do que a vantagem que o infeliz tem contando para os confrades machistas. Uma época eu pensava que esse machismo era homessexualidade mal aceita. Não, homossexual não é tão cínico assim. Se todos nós, colonos e citadinos ítalo-brasileiros ou não, somos naturalmente antas em muitos aspectos, nesse aspecto de ganhar dinheiro com esperteza, aparecem antas bem mais antas que as antas em geral.

Ora, ser anta de anta é realmente uma ignomínia e humilhação metafísicas.

Igualmente, aquele que, sendo anta como todos nós somos em alguns aspectos, faz do outro anta, seja parente, próximo, colega ou até amigo, esse “furbo”, é ao mesmo tempo mal-falado, mas também secretamente muito admirado e valorizado. Surge aí o conflito entre a inveja e a admiração que move as almas não somente dos colonos e citadinos ítalo-brasileiros e descendentes, mas também a humanidade, perante esse portentoso deus do qual somos crentes e servidores a maior parte do tempo de nosso dia e de nossas vidas.

Crianças, velhos ou excluídos como incapazes de servir a esse deus são considerados fracassados e pobres coitados. Nem se diga dos mendigos e moradores de rua, considerados mais como vagabundos do que enigmas. Não sei que graça há em fazer opção por esses coitados, se nessa opção esses coitados continuam a gozar desse privilégio funesto de coitados excluídos...

Com nove anos de idade, aprendi a comprar dinheiro de duas maneiras diferentes: 1) trabalhando meio expediente numa fábrica de palhas; 2) servindo de coroinha nas missas mensais da capela de Nova Treviso, hoje Nova Roma do Sul.

Enquanto algumas crianças brincavam aparentemente felizes no período em que não iam para a escola, outras, eu era uma, trabalhávamos na roça para os pais ou como, no meu caso, trabalhávamos também na fábrica de palhas destinadas a cigarros tipo palheiro.

Não via o cheiro do dinheiro pago no fim do mês. Isso desentusiasmaria qualquer cristãozinho!

É curioso que nunca ninguém conseguiu meter a mão no dinheiro que eu adquiria como gorjeta ou como coroinha. Resultado: gastava o quanto antes de medo que me fosse tomado não no sentido de roubado, mas no sentido de que devia entregar esse dinheiro aos pais, no caso à mãe. Percebo que eu já praticava, sem votos de pobreza, aquilo que os monges e monjas, a quem não faltam os bens materiais, chamam de voto de pobreza. Pode-se ganhar dinheiro, mas não se pode ter a propriedade dele, nem a disponibilidade dele e muito menos o apego a ele. Dá para entender?

Essas filosofadas vãs não impediam que o dinheiro exercesse e exerça atração e poder sobre os monges e monjas e especialmente sobre os bispos, os cardeais e o próprio papa que não são monges! Por mais que fique silenciado, escondido ou abertamente difamado – por exemplo, “o dinheiro é o lixo do diabo!” – o dinheiro exerce fascínio, atração e devoção como certas partes de nossos corpos, as quais mantemos escondidas, íntimas e secretas, embora, nas falas, desde pequenos aprendemos a referi-las com palavras chulas, ditas palavrões. E delas só poderíamos falar candidamente como criancinhas ou com os termos científicos e preferivelmente em latim! Isto é, podemos falar em termos latinos, ou com o deboche da gozação, ou com a candura infantil ou com a severa cientificidade!

Uma das atividades que eu não podia deixar de fazer quando guri era cuidar das galinhas. Isto implicava recolhê-las de noite, fechar os galinheiros. De manhã cedo, entrar nos galinheiros e separar as galinhas poedeiras do dia, mantê-las presas e soltar as outras. Noutra ocasião, contarei como se faz isso que é meio parecido com a arte do proctologista e do escolhedor de palhas de milho destinadas aos cigarros tipo palheiro, no trabalho na fábrica de palhas. O cuidar das galinhas me permitiu descobrir por mim mesmo aquilo que os alunos de biologia não encontram nos livros: por quê aparecem ovos chocos e fedorentos dos quais não saíram pintainhos? Soube há pouco, perante o maravilhamento de Ivone e Joaquim (provectos sobrinhos setentões), da existência da expressão “ovos galados” e “ovos não-galados”, expressões que supõem o conhecimento que eu tinha sem expressá-lo: ovo de galinha sem a participação do galo, se chocado pela choca, via virar ovo choco e ovo de galinha com a participação do galo, se chocado pela chova, vai virar pintinho.

Nas escolas, tipo internato, a vida é meio parecida com a de monges. Foi assim durante minha adolescência e primeira juventude: a agente não tinha dinheiro próprio e disponível. O que se tinha era o dinheiro contado para o ônibus, para o remédio e assim por diante e sempre pingado. Não é muito diferente do que se passa com as famílias onde a criança e o adolescente não recebem mesada fixa. Era o comunismo econômico que se acredita ter existido nas comunidades de base dos primeiros cristãos. Nem por isso precisavam fazer voto de castidade ou de obediência! Comunismo econômica na família e nas comunidades dos primeiros cristãos se funda no princípio: “A cada um segundo suas NECESSIDADES e de cada um segundo suas CAPACIDADES”. O adulto, no caso o pai e a mãe, têm mais capacidades e por isso deles se exige muito mais. Os filhos, principalmente quando crianças e adolescentes, têm muitas NECESSIDADES que os adultos já não têm e mais ainda não têm a CAPACIDADE de comprar dinheiro como têm os adultos. O comunismo comunitário dos monges e das freiras é meio parecido: mas lá não tem filhos, nem adolescentes, nem eles arcam com imensa responsabilidade de transmitir a vida, embora gostam muito de meter a colher torta nessas questões especialmente quando se investem de cargos políticos religiosos, tipo bispo, cardeal, papa e outros metidos a monsenhores. Quero saber qual o político de Estados ou clérigo de Igrejas que é capaz de fazer um décimo do que faz um pai e uma mãe, por mais atrapalhados, pobres ou socialmente excluídos que sejam. No frigir dos ovos, é sempre o consumidor que paga a maior parte do IMPOSTO. No frigir dos ovos é o laicato que sempre paga o IMPOSTO do clero de Igrejas e do político de Estados. O laicato, dos Estados e das Igrejas, continua hipotecado e alienado como boi que não sabe o poder de sua força?

Todavia, na falta do dinheiro de verdade, me surgiam outros sistemas com os quais se podiam fazer trocas e negócios. Assim como os meninos usam bolinhas de gude tanto para o jogo como par os negócios, assim também no internato havia o sistema de objetos, aparentemente religiosos, chamados medalhinhas, santinhos, etc., Trocavam-se santinhos e faziam-se negócios usando santinhos! Isto é, trocavam-se santinhos por outras coisas que não fossem santinhos. Prestavam-se serviços em troca de santinhos, por exemplo, fazer o tema para um colega vagabundo ou incapaz, dava santinho! Eu tive um colega que vivia esperando a invenção de uma máquina capaz de transmitir as aprendizagens de um aluno para outro: por exemplo, ele ligaria os fios na minha cabeça e na dele, aquilo que eu aprendesse acordado, passava para a cabeça dele, enquanto ele dormia. E quando eu cansava inverteríamos a coisa. Mesmo não existindo ainda essa máquina (?), eu não aceitei a proposta: pois eu já entraria mal. Ele era muito pouco estudioso e muito dorminhoco e assim eu não poderia dormir tanto quanto ele.

O comércio é uma invenção genial da humanidade que existe muito antes do cristianismo e do capitalismo. O dinheiro que existe muito antes do cristianismo e do capitalismo é outra invenção genial da humanidade. Com o dinheiro compram-se mercadorias, serviços, etc., - até as almas podem ser compradas ou alugadas e não somente prostitutas! – e com dinheiro se pode também comprar dinheiro, como no caso da Caderneta de Poupança, Bolsa, jogos tipo loterias ou jogos particulares e privados tipo jogatina.

Os cristãos, vivemos como todo e qualquer ser humano não maluco ou marginalizado, voltados para o dinheiro, ocupados e preocupados com o dinheiro, não somente nas campanhas de fraternidade! Assim como vivemos voltados para o que significam as partes íntimas de nossos corpos, assim também vivemos voltados para as coisas mais secretas que o dinheiro movimenta e manipula. Somos realmente movidos a dinheiro, sexo, poder, prestígio e outros móveis. Todavia, por que é que não sossegamos?

Sábio o menino que, tendo perguntado à mãe porque as mulheres se pintam, recebendo a resposta, “para ficarem bonitas”, ainda pergunta: “E por que é que não ficam?”

Por que é que vivemos comprando dinheiro? Para ficarmos mais bem abastados? E por que é que não ficamos então nesse mundo capitalista consumista sem eira nem porteira?

Quando o dinheiro faz falta, então é ele se torna o pior dos tiranos. Mas, como entender a tirania do dinheiro quando ele não mais faz falta? O que é que falta então, que o capitalista consumista e consumido busca sem nunca encontra no dinheiro? Sabe ele que o dinheiro é um bom empregado, mas, péssimo patrão?

Estaria ele significando uma falta que dinheiro algum, sexo algum, poder algum, prestigio algum podem suprir? E por que não? Capitalista consumido é escravo voluntário e prestigiado, nada burro, mas transviado. Não tem tempo nem para se divertir. E quando economiza tempo, nada sabe fazer com ele senão matá-lo. São as lições que eu comecei a aprender nas grotas dos rincões do Antônio Prado Profondo. É curioso, mas também nasce gente lá. Amichevolemente, jlcaon